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Artigos de Opinião

Ica
22 de Fevereiro de 2012




Janko estará já por esta altura arrependido de ter escrito o que escreveu no seu Facebook. Isto, claro está, partindo do princípio que ainda não absorveu a postura trauliteira do grande timoneiro e não tenha sido promovido a moço de recados em tempo recorde. Não cremos que seja o caso, até porque atendendo às suas origens, a nossa convicção é que a adaptação à específica pequenez da liderança do Dragão levará o seu tempo. «Ica perdeu. Yuhhuuuu :-)))», escreveu ele na rede social. Certamente injectado com a rivalidade Benfica-FCPorto, contudo desfasado de como esta é vivida – com laivos de irracionalidade, o austríaco involuntariamente acicatou os ânimos e restou-lhe assistir estupefacto a uma batalha campal em que felizmente as ofensas não passam... de ofensas.

Diga-se que o regozijo do recente reforço do FCPorto é perfeitamente normal e os excessos são de todo escusados. E diga-se também que Ica talvez não tenha sido a expressão mais conseguida para se referir ao Benfica. Para mais vindo de alguém que acabou de chegar a Portugal.

Por Inglaterra Alan Pardew também se engalfinhou com André Villas-Boas dizendo «Este tipo é novo no nosso país e acho que devia mostrar um pouco mais de respeito», isto após o técnico português ter relativizado uma expulsão perdoada a um seu jogador, provavelmente porque se distraiu e pensou que estava ainda em Portugal e tinha por trás a máquina de propaganda portista que rejubilaria com mais um hino aos mind games.

Mourinho que é Mourinho, também teve de refrear a sua postura depois de criticado veementemente pelo universo blanco fruto da postura trauliteira da Supertaça, ou mais recentemente após a problemática semana aquando da derrota ante o Barcelona para a Taça do Rei no Bernabéu. Tem valido, na circunstância, o avanço entretanto conquistado na Liga espanhola, o que a par da sua mudança de atitude, lhe devolveu os aplausos.

São especificidades de cada país e, já dizia o provérbio, «Em Roma, sê romano». Alfredo Di Stéfano - voz influente merengue, disse há alguns meses que «Os adeptos têm sempre razão», isto a respeito dos assobios a outro português - Cristiano Ronaldo. Assumindo por um lado os contornos de um chavão, diga-se por outro que acaba por ser o mais sensato, obrigando as figuras proeminentes do Futebol a um compromisso com as massas, o que não significa forçosamente que se tenham de vergar a elas como se faz nalguns sítios bem conhecidos. Apenas não as hostilizar e saber agir nas alturas certas.

Numa sociedade mais fria em que todos os dirigentes e adeptos do futebol fossem normais, este episódio de Janko em particular, passaria despercebido. Porque daí não vem mal ao Mundo, porque o jogador provém de culturas do Norte da Europa, e ainda porque uma rivalidade se sadia é salutar. Infelizmente, passou-se da rivalidade zero para a implementação de uma guerra fomentada pelas sucessivas direcções de Pinto da Costa, que foi subindo gradualmente de tom até atingir o pico com as consequências que estão à vista de todos.

E quando hoje em dia avaliamos as declarações seja qual for a via de jogadores do FC Porto incluindo os que acabam de chegar, apercebemo-nos até que ponto são industriados para aceitar e difundir as balelas provocatórias do grande timoneiro, revelando não uma rivalidade no sentido específico do termo, mas sintomas claros de uma provocação sem balizas, apenas porque... essa é a imagem de marca da inexpugnável estrutura pintista que continua a funcionar como se ainda estivesse nos idos anos noventa.

Nesse enquadramento histórico realista e face aos antecedentes, quando os portistas dizem que não houve desrespeito e porque já não pegam esses discursos bacocos, não só devemos ignorar como compreender que se a situação se invertesse estariam, na linha coerente que os marca, a defender a «portofobia». Apoiam-se em declarações alegadamente provocatórias de Javi García no passado, como forma de agora justificar o deslize de Marc Janko mas talvez fazem por esquecer que, aparte o desejo normal das escorregadelas dos opositores, não houve qualquer desrespeito à instituição FCPorto.

Os benfiquistas por seu turno não apreciaram ver Sport Lisboa e Benfica resumido a três letrinhas apenas. Deve ser o sinal dos tempos nos quais até poupamos letras na escrita, e se portugueses nativos se referem ao Benfica como os «outros», o «outro clube» ou a «outra equipa», numa clara e ostensiva provocação (e esses não têm a mínima desculpa), e apesar de alguns futebolistas emigrantes do futebol portista servirem, sem se aperceber, de veículos propagandísticos da verborreia e da estratégia comunicacional portista, não será possível ao menos compreender e tolerar a parolice de mais este emigrante?


 
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