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Artigos de Opinião

Tentação de papagaio
22 de Fevereiro de 2012




Não sabemos se serão os neurónios invertidos, se o desejo de sair do ostracismo social a que se encontra votado no seu desterro dourado ou, ainda, se está a cumprir desajeitadamente alguma missão encomendada pela sua antiga entidade patronal. Deixamos por isso ao critério de cada uma das consciências interpretar da forma que considerar mais ajustada o que lhe parece mais próximo da realidade.

Com uma cadência ritmada que denuncia uma acção concertada do marketing mais rasca e denunciador das origens dos seus criadores, Bruno Alves recentemente popularizado com a designação eufemística de ‘Menino do Papá’ dada a recorrência com que um trintão é defendido pelo seu guardião progenitor, honrando as tradições comportamentais que herdou da escola azul e branca, tem-se desdobrado em declarações, mesmo sabendo-se que não prima pelo brilhantismo de análise e pela clareza de raciocínio.

Esta súbita loquacidade que é apenas motivada pelos genes que continua a manter bem vivos do Dragão por quem parece ter sido industriado na tentativa de se libertar e palrar, coisa a que não estava habituado num antro onde apenas é oficialmente autorizada a voz do dono, tem tido abundantes débitos de linguagem com momentos hilariantes, não sendo estultícia afirmar que desde que o destino escolheu o Benfica para defrontar o seu Zenit, nunca o viril mas não violento ex-defesa portista tinha dissertado tanto, ao ponto do responsável do site do Zenit se ter de desdobrar perante a cadência de declarações do até aí recatado ex-jogador do FC Porto.

Dado o desejo de protagonismo que pretendia ver ampliado mas que a estratégia mal amanhada dos seus mentores acaba por denunciar o seu epicentro, Bruno Alves apesar de ter saído há pouco tempo de Portugal, não se está a aperceber nem o ‘papá’ o colocou ao corrente, que algo de substancial se alterou na eficácia da aplicação das outroras relevantes e profícuas golpadas usadas abundantemente no seu anterior clube. Se assim fosse, estamos em crer que não papageava tanto para dizer tão pouco com tão gritante défice de objectividade.

Num país de amplas liberdades como o nosso, todos percebemos e de uma forma geral aceitamos que um qualquer jogador que milite numa certa equipa, manifeste em público a sua simpatia por outro clube, e expresse inclusive o desejo de ver esse clube campeão – nesse particular recordamos a singela coerência dos adeptos leoninos que depois de gritarem pelo ‘Domingos campeão’ quando o então treinador do Braga visitou Alvalade na época de 2009/2010, voltaram a fazê-lo na presente época na altura da sua apresentação. Esse jogador terá no entanto que ter alguma elegância e inteligência para não se comportar como se ainda fizesse parte do seu plantel e adoptar o discurso oficial com pontos e vírgulas, denunciadores de uma estratégia que vai muito para além das palavra e frases ocas que tem debitado amiúde nos últimos tempos.

Sabemos também que para as inteligências medianas e para as personalidades dependentes, é muito difícil ultrapassar o trauma do discurso redondo e vazio a roçar a mediocridade, prisioneiro e limitado pelas suas sistemáticas contradições que, por durarem há muito acabaram por se perder, quando a voragem do tempo acabou por deixar para trás uma organização miserabilista que não soube nem quis evoluir, com receio de perder algumas das vantagens que lhe renderam juros com spreads muito elevados.

Estamos aliás em crer que o discurso terá sido mal decorado e na prática, os desejos e previsões do ‘Menino do Papá’ poderão sofrer duros revezes no futuro próximo, na linha da tradicional caixinha de surpresas que o futebol encerra a cada passo. Mau grado ainda não termos entrado definitivamente na zona de decisão nevrálgica da época, o seu clube em cinco objectivos acaba de falhar o quarto - que já era de recurso, com a agravante que ficou impossibilitado de defender o título que conquistou em Dublin.

O afastamento do actual detentor da Liga Europa e Campeão Nacional em título será sem dúvida relevante e registará algum impacto no Mundo do futebol até pelo resultado pesado da eliminatória, apesar do Manchester City não ser uma equipa qualquer. Para além de ser negativo para a imagem do futebol português, resta saber até que ponto é que esse facto exercerá influência decisiva na estrutura do futebol portista e no subconsciente dos jogadores, justamente aquilo que dizia o central do Zenit em relação ao Benfica com a sua derrota em Guimarães.

Poderá socorrer-se da argumentação que aponta para o facto de se tratarem de provas diferentes e que uma coisa é a Liga interna e outra as provas europeias. É um ponto de vista que poderá ser aceitável ou não, dependendo sempre do que virá a seguir e que ainda não sabemos nem temos capacidade de prever. Agora o que é uma realidade indiscutível é que para um clube habituado a chegar longe nas provas europeias e até ganhá-las, não passar da Fase de Grupos da Champions e ser eliminado logo na ronda seguinte na Liga Europa terá forçosamente consequências, restando saber o real impacto das mesmas.

Privado dessa importante fonte de financiamento que inclui as receitas directas e indirectas e ainda o impacto negativo da inevitável desvalorização de jogadores potenciada por uma crise sem fim, é crível pensar que o FC Porto irá apostar todas as fichas no campeonato nacional e Taça da Liga, o que se por um lado pode ser positivo porque não cria dispersão, por outro aumenta exponencialmente a pressão do ter forçosamente que ganhar, e como tal poderá acarretar ansiedade e por consequência menos racionalidade na abordagem dos encontros que se seguirão e que passarão a constituir autênticas finais onde errar será proibido.

Observa-se assim, que o discurso estratégico de Bruno Alves se ainda se pode salvar de morrer afogado corre sérios riscos de cair pela base, se considerarmos que os alicerces não oferecem garantias sólidas de poder aguentar o tráfego intenso que não deixará de passar nas pontes. Transportando consigo um rótulo nada abonatório para um profissional de futebol apesar dos esforços congregados de várias famílias, a sua transferência para a Rússia poderia ter o condão de amenizar as consequências negativas da sua imagem de marca, considerando que o tempo tudo faz esquecer, pelo menos a uma parte significativa das massas.

Infelizmente Bruno Alves não resistiu ao apelo do coração e não soube ou não quis, praticar a gestão do silêncio. Ao não o fazer, para além de ser incapaz de assumir a sua deplorável acção no Estádio Petrovsky, vem agora em terras lusas servir de ponta de lança de interesses de outro clube que não é o seu actualmente, o que lhe agrava ainda mais a imagem de homem e de profissional. Já aqui o tínhamos dito e voltamos a fazê-lo, que no jogo do dia 6 de Março a reacção dos adeptos do Benfica deveria ser a de que não valia a pena gastar cera com tão ruim defunto. Face a estes novos desenvolvimentos começamos a ter dúvidas...

NDR: Bruno Alves quis ir mais longe e tentou promover o 'Perdoa-me' de Danny junto dos adeptos portistas. Para isso, convenceu o luso-venezuelano que o melhor antídoto seria debitar algo de desabonatório sobre o Benfica.Voluntária ou involuntariamente, a verdade é que Danny perdeu uma soberana oportunidade de estar calado. Não há dúvida que o frio intenso da Rússia afecta os neurónios...


 
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